O que vem por aí - A LENDA DO REINO PARTIDO

Uma trupe teatral em crise situada em um reino também imerso em uma crise política. A crise dentro da crise, ou a perspectiva de um metateatro proposto pela Folgazões - Companhia de Artes Cênicas no espetáculo A LENDA DO REINO PARTIDO, traz características autobiográficas no texto de estreia de Duílio Kuster como dramaturgo. Em 2016, em meio a uma forte crise política no País, o grupo perdeu dois de seus membros fundadores e Duílio e Foca Magalhães decidiram dar continuidade à Folgazões, que, este ano, completa 10 anos de história.

Além de Duílio e Foca, a peça conta com a atriz convidada Lorena Lima e tem Dori Sant’Ana na direção musical. O espetáculo, que apresentou um ensaio aberto na última quarta-feira (02 de agosto) na sede do grupo, tem estreia prevista, não por acaso, para o dia 7 de setembro. A direção é coletiva.

Confira, abaixo, a entrevista com os integrantes do espetáculo! Esta é a quarta da série “O que vem por aí”, que aborda estreias teatrais de 2017 e tem o objetivo de informar, com um pouco mais de profundidade, sobre o que tem sido produzido no Espírito Santo, além de ampliar o espaço de divulgação sobre o fazer teatral local. A série é promovida pelo Blog Cena Capixaba em parceria com a atriz e jornalista Patricia Galleto.



Como surgiu a ideia de escrever o texto?

Duílio - Ano passado, a Folgazões viveu um momento muito crítico, dois membros fundadores decidiram sair do grupo. Isso nos sacudiu bastante e eu fiquei meio desorientado. A isso se somou ao que estava acontecendo com o país, o impeachment e aquela loucura, o país se dividindo, um ódio forte e abominável surgindo, uma coisa esquisita. Isso mexeu bastante com a minha cabeça e eu falei “temos que montar uma peça nem que seja para não enlouquecer”. Até conversei com a Lorena na época, falei sobre a ideia de montar a peça. Houve a abertura dos editais da Secult, a gente se inscreveu no de Montagem e passou. Eu nunca tinha dirigido. Nos trabalhos da Folgazões, ou a gente fazia a direção coletiva, ou era alguém de fora. Então, eu tinha pensado em assumir só a direção, mas aconteceu um imprevisto e o ator que eu tinha chamado saiu, e aí eu entrei. O Foca, por sua vez, assumiu o cenário - até então a gente não tinha essa visão do Foca como cenógrafo, foi uma surpresa.


É um espetáculo de estreias, então...

É, mas eu digo que a direção tem sido coletiva porque as coisas foram surgindo e modificando a minha visão inicial. Ao mesmo tempo, eu não achei saudável querer impor nada porque a gente está num momento de realinhamento e todo mundo tem que se colocar. Lorena e eu estudamos juntos dez anos atrás, ela esteve na raiz do Folgazões, inclusive, foi ela que me chamou e, logo depois, saiu do grupo. Ficamos anos afastados e estamos nos reencontrando neste trabalho. Ela também veio com um novo olhar sobre o texto - já que também escreve e dirige. Além disso, veio o Dori Sant’Ana com a direção musical, que também direcionou o trabalho de outra forma, já que a música conduz muito a movimentação e a marcação do espetáculo. Sendo assim, pelo menos na minha cabeça, eu tenho assumido uma ideia de direção coletiva, até para repensar isto: não direção coletiva enquanto caos, mas com cada um assumindo uma função e dialogando.

O elenco em cena no ensaio aberto. Foto de Luís Vila Nova.

Do que fala a peça?

Fala de um grupo, que é uma trupe teatral, em crise em um reino em crise, que é um pouco do que a gente viveu e ainda está vivendo no Brasil. Ao mesmo tempo, é um olhar distanciado para o passado, uma trupe com características medievais, vivendo aquele contexto de crise, de Peste Negra - e aí tem uma simbologia da peste como doença, a peste que nos envolve hoje no sentido político, os ratos (fala muito de ratos, tanto no sentido físico quanto uma metáfora dos roedores, das ideias que nos corroem).


Essas analogias são explícitas em alguns momentos?

Sim, os personagens principais da grande novela da crise estão todos presentes. E estão sendo atualizados já que muitas coisas novas estão surgindo.


Como tem sido o processo de montagem no dia a dia? Você disse que tem sido colaborativo, mas como isso funciona na prática na rotina de ensaios?

Duílio - A gente teve alguns momentos. Teve um momento mais de leitura e discussão de texto, depois, mais de trabalho físico, buscando construir essas figuras, que são personagens que dialogam um pouco com a Commedia dell’arte, com aquele corpo mais construído, menos cotidiano. Fizemos algumas improvisações a partir dos corpos, pensando nas intenções das cenas. Depois, já fomos pensando em algumas marcas e, nisso, o cenário foi ficando pronto. Na sequência, foi aparecendo mais a questão da música.

Foca - E a gente procurou também não abandonar uma linguagem de rua que o grupo já adquiriu ao longo dos anos. Apesar de estarmos em um espaço fechado, alternativo, mas o máximo que a gente puder trazer da rua para cá a gente vai trazer, dessa evolução da linguagem também, de ver como essa questão da linguagem continua agora aqui dentro.  


É um espetáculo para espaços fechados?

Foca - Para qualquer espaço. É uma característica nossa não ter essa definição. Apesar de a gente ter um espetáculo mais intimista, que serve mais para um lugar fechado, ele cabe tanto em um palco italiano quanto na rua.

Duílio - É aquela discussão de teatro de rua e na rua. O Galpão, por exemplo, faz muito teatro na rua, porque coloca um palco na rua, e a ideia do teatro de rua, pelo menos no meu entender, é com um texto mais aberto, que permite que um cara passe no meio da peça e você incorpore isso. Já no teatro na rua essas intervenções não são tão interessantes. Em “Romeu e Julieta”, por exemplo, se entra alguém no meio da cena, vai dar uma quebrada total. Eu ainda não sei como seria aqui. Na minha cabeça, poderia ser mais um teatro na rua do que propriamente um teatro de rua.

Foca - A gente não sabe porque a gente não fez ainda. Que nem no “Pastelão”. Cada interferência é de um jeito.


Também é uma característica do grupo incluir a musicalidade nos espetáculos. Como ela aparece nesta proposta?

Duílio - É uma característica, apesar de não sermos músicos. A gente é mais cara de pau do que músico (risos). Acho que, nesse espetáculo, mais do que nos outros (pelo menos de acordo com a ideia do Dori que a gente abraçou), a música está presente o tempo inteiro, como se tivesse um ritmo perpassando toda a peça. E esse ritmo ora aparece no violão, ora numa batida no cenário, ora em um objeto que faz um som, ora nas próprias interpretações dos atores.

Foca - O espetáculo todo se passa dentro de uma carpintaria, que já é um lugar normalmente sonoro, com batida de martelo, serrote, e também é uma casa e o lugar de ensaio da trupe, então, tudo acontece ali. Quando a gente olhou para o texto, pensou que precisaria criar um universo onde a vida toda deles se construísse ali dentro. E aí pensamos em como, dentro desse universo que é fechado, expandiríamos para todos os universos que eles precisavam para se comunicar. A cenografia entrou tentando amarrar isso porque a gente tem quebras rápidas, sai de uma realidade muito dura para uma situação de sonho, de esperança. Assim, o projeto de cenografia veio para trazer esses ambientes de comunicação, que seriam a casa propriamente dita, a oficina lá dentro, onde eles vivem as relações deles, a intimidade deles, o dia a dia; o quintal aqui fora, onde eles pisam o chão, a realidade da vida difícil, da relação deles com a sociedade; e o palco, que é o lugar do sonho, onde eles têm as aspirações, vivem a vontade verdadeira deles de serem artistas e onde realizam isso, e se confessam também. Isso já ajudou a construir eixos de cena, movimentação, além da própria sonoridade porque o cenário é todo construído em madeira. A parede tem uma acústica que está sendo aproveitada na percussão.

Duílio - A gente toca a parede.

Foca - Martelo, serrote, lixa, enfim, tudo vai se encaixando dentro da situação. O Dori está construindo a nossa sonoridade, com os corpos, com o cenário, com os instrumentos, ele está trazendo esse jogo musical.


Fotos de Luís Vila Nova.

Além da Commedia dell’arte, que outras referências ou características vocês poderiam destacar nesse trabalho em termos de linguagem e estética? Há alguma pesquisa específica ou ele traz o que vocês já trabalham como Folgazões? 

Duílio - Alguns temas se repetem, por exemplo, a própria questão da sonoridade, sonoplastia, trilha ao vivo, a questão da comicidade, apesar de não ser um espetáculo cômico - a gente considera uma tragicomédia, mas a comicidade aparece bastante -, uma linguagem menos intimista, mais aberta, que é uma característica nossa, e acho que essa questão corporal também, a busca desses personagens mais construídos corporalmente, menos realista, é uma estética menos realista possível.

Foca - Em relação ao figurino, a gente teve, como ponto de partida, o medieval, mas também quis trazer para um tempo atual, pelo menos até os anos 70. Começamos a quebrar isso um pouco para não ficar algo desenhado porque não é uma peça de época, é uma trupe teatral, a gente não quer datar especificamente um país ou um lugar. Estamos trazendo algumas referências de Commedia dell’arte e bebendo na Tropicália e no Steampunk, vamos ver o que vai sair daí (risos). Agora, estamos partindo para as texturas e cores porque a gente tem que trabalhar com uma paleta que também traga o significado que a gente busca. Da mesma forma como construímos esse jogo da movimentação, de planos diferentes, elementos diferentes - a casa/oficina é o fogo, o quintal é a terra, o palco é o ar -, vamos trazer isso também em características do figurino de cada personagem. O Dionéio é o líder, um sonhador inveterado, mas também aquele que está empreendendo, fazendo a trupe se manter viva, ele é o grande provedor da trupe toda; a Guiomar é uma personagem que vem do campo, rústica, mais politizada, se apodera da arte para poder fazer o seu discurso chegar às massas; já o Felizberto é um burguês, criado em boa família, mas encontrou na arte sua forma de se expressar e acaba largando o conforto para viver as misérias da arte, é o que ele gosta de fazer, então, isso tem que refletir também no figurino.

Duílio - E uma outra característica da qual eu particularmente queria fugir, mas que acabou ficando, foi essa questão do coletivo mesmo, porque, durante o Folgazões, quando estavam os quatro integrantes, a gente tinha problemas também a respeito da direção coletiva, era um pouco caótico, aí eu falei “não caio mais nessa armadilha” (risos). O destino nos encaminhou para isso e é muito interessante porque é um exercício permanente de diálogo.

Lorena - A gente conversa, troca, dá sugestão, experimenta, mas é importante ter alguém para dizer “isso fica, isso não dá”. Quando fazemos essas combinações, estamos em um lugar de progresso. Podemos discutir, não concordar, mas tem alguém para pontuar, senão vira bagunça, senão a gente se desentende, é um exercício esse lugar do diálogo. E, quando a gente descobre esse lugar, que arrisco dizer que é o que está acontecendo hoje, é muito legal porque tem espaço para todos, mas tem que ter a pessoa que concebe, esse olhar de quem concebe é que estuda, se debruça, amarra e deve dar a palavra final.


Em termos de estreias, Lorena também tem a primeira experiência nesse tipo de interpretação tragicômica?

Lorena - Minha primeira experiência, tanto de cômico quanto de um corpo mais construído. Nunca coloquei os pés na Commedia dell’arte, nunca experimentei esse caminho, que, para mim, está sendo renovador porque cria um lugar de potência que eu não conhecia nesse aspecto de ir para o extremo, o exagero, e brincar com isso. Eu estou muito feliz mesmo porque é novo para mim. O cenário é como uma roupa para gente. A gente ensaia nele, aquece nele, vai se apropriando dele aos poucos. É uma experiência que eu nunca vivi, geralmente, ou não tem cenário ou o cenário chega perto da estreia. Estou me divertindo demais.


“A Lenda do Reino Partido” é montada quando a Folgazões completa dez anos...

Lorena - E o Grupo Beta, do qual faço parte, também faz 10 anos este ano. Eu e Duílio começamos juntos na sala da Fafi, são dez anos de amizade e agora tem esse novo momento do grupo Folgazões, em que ele se reinventa, se recria, e o Beta também, então os dois grupos se encontram e vão estrear no mesmo mês, praticamente. De modo geral, os grupos no Espírito Santo precisam se abrir mais, se convidarem, se encontrarem para falar de projetos, trabalhar em parceria, e esse espetáculo e toda a história pegam muito nisso, não tinha como eu recusar o convite, até porque…

Duílio - Eu implorei (risos). A ideia era montar até sem grana.


Falando desse momento, vocês como Folgazões têm novos planos ou estão com o foco voltado só para o espetáculo por enquanto?

Duílio - Eu vivo as duas coisas o tempo inteiro. Ao mesmo tempo em que, às vezes, penso em 50 anos para frente, velho, com rugas, fazendo teatro, penso também que a gente não tem garantia nenhuma de nada, não só dentro do teatro, mas quanto ao país. E a peça fala muito disso também. Por exemplo, quando a nossa sede era onde hoje é a Má Companhia, em 2007, a dona do imóvel tinha uma coisa de aumentar o aluguel - e o espetáculo fala disso - de um ano para outro em 100%. Às vezes, existem questões que podem acabar com um grupo e não tem a ver com as pessoas que estão ali. Ainda mais no Espírito Santo, tudo pode dar errado o tempo inteiro. Mas a mensagem é que depende de você resistir ou não. O caminho mais fácil seria desistir, mas e o dia seguinte? Acho que não há outra alternativa a não ser ter esperança. Por pior que esteja a situação, cabe a você ter esperança. Ao mesmo tempo, estou hiperempolgado com o grupo, com o Foca se mostrando um cara de mil e uma habilidades, ter a Lorena próxima depois de anos. Vivo hoje um momento de grande empolgação, mas não é uma empolgação cega, sabendo que as coisas sempre podem dar errado, mas que, ainda assim, é preciso resistir de alguma forma, artística e politicamente.

Foca - O que a gente tem visto também é que, com dez anos de trabalho aqui no grupo, fora a carreira anterior, está na hora de a gente começar a dividir um pouco do que aprendemos durante esse tempo. Estamos programando, para o segundo semestre, entrar com cursos mais regulares, voltados para o trabalho de interpretação com máscaras, o trabalho técnico do ator, não só para o teatro, mas para TV e cinema. A gente caminha também por outros lugares. Pensamos, então, em fazer um calendário de cursos regulares, abrir seleção de outros profissionais também para virem integrar o Folgazões para trabalhos extras, já que, vira e mexe, a gente está sendo contatado por empresas querendo uma coisa específica, é um mercado que existe e a gente precisa aproveitar algumas oportunidades que surgem para poder continuar fazendo o que mais gosta.


TEMPORADA DE ESTREIA
A partir de 7 de setembro (Se tudo der certo...)
Sede da Folgazões Companhia de Artes Cênicas
Rua Nestor Gomes, 168, Centro de Vitória.

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